Linguagem Inclusiva

Como alguém que vem da área da comunicação, consigo entender que a forma como comunicamos tem uma importância enorme nas nossas relações. Como falamos e nos dirigimos às outras pessoas, reflete quem somos e reflete acima de tudo a realidade e o mundo que queremos construir.

A escolha das palavras certas, e a forma como escolhemos reagir às palavras dos outros falam muito sobre nós próprios. Podemos optar por falar de forma empática e inclusiva, ou podemos não nos dar ao trabalho – sendo que isso por si só já tem uma mensagem – e falar sem preocupações.

Acredito que todas as pessoas já se tenham apercebido que a língua portuguesa utiliza o masculino plural como genérico padrão. E não é surreal como isso é um reflexo daquilo que ainda se passa na esfera pública e na esfera privada? São os homens no controlo.

Pois é, a linguagem inclusiva surge com o objectivo de promover a igualdade entre homens e mulheres, sem perpetuar as percepções dos papéis de género esteriotipadas em função do sexo.

Inclusive, a Constituição da República Portuguesa, no artigo 9º, alínea h) refere que promover a igualdade entre homens e mulheres é uma das tarefas fundamentais do estado.

Mas a questão é que já não é suficiente falar em homens e mulheres.
Quando esta preocupação começou a surgir, achou-se que a questão ficava resolvida com a técnica da especificação:
– através das formas duplas (exemplo: o professor e a professora, o pai e a mãe);
– ou através de barras (o/a professor/a).

Mesmo aplicando este tipo de linguagem que pretende ser inclusiva, continuamos a excluir parte da população, já que sabemos que existem muitos mais géneros do que “feminino” e “masculino”. Não devemos limitar a linguagem aos géneros binários, quando sabemos que as possibilidades são muito mais do que apenas duas. A linguagem inclusiva não se deve limitar à questão da igualdade entre homens e mulheres, mas sim à igualdade de géneros, já que aqui também queremos incluir as questões relativas às pessoas LGBTQI+.

Este tema é tão relevante, que até o Regimento do Conselho de Ministros inclui, nas suas regras para a elaboração de atos normativos, a utilização de linguagem não discriminatória, através da neutralização ou minimização da especificação de géneros.

Pois é, mas então fica a dúvida… Como podemos comunicar de forma inclusiva? Respeitando as conquistas das mulheres, incluindo todas as pessoas, independentemente do género e das capacidades, sem excepção?

Ultimamente temos visto o recurso à “@”, ao “x” e ao “e” na substituição de pronomes, por exemplo [email protected]”, “Bem-vindxs” ou “Bem-vindes”, mas também existem 2 problemas com estes formatos:
Os dois primeiros são limitados à escrita, não são possíveis de ler, e por isso pode existir a tendência de fugir para o plural masculino ou para a técnica da especificação; os bots de leitura de texto não conseguem ler, em muitos casos, nenhuma das três opções. Isso por si só já pode criar uma situação de exclusão, por exemplo, para pessoas invisuais.

Além de que nenhuma destas opções está instituída na língua portuguesa. 

Então… como devemos comunicar para sermos pessoas inclusivas na nossa linguagem?

Fui pedir ajuda à ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo) para perceber qual a melhor forma de contornar estas questões linguísticas, e foi-me explicado que o ideal é recorrer à neutralização ou abstração sempre que possível:

  • O Homem – as pessoas, os seres humanos
  • O interessado – a pessoa interessada
  • O educador – a pessoa educadora
  • As senhoras da limpeza – o pessoal da limpeza
  • Os homens de negócio  – o mundo dos negócios
  • Os ministros – o conselho de ministros
  • Os nossos filhos – as nossas crianças

Vamos tentar que a comunicação não refira pronomes, porque a verdade é que não sabemos como é que as pessoas se identificam e por isso vamos procurar comunicar de forma neutra. Isso por vezes pode implicar reformular, por exemplo, eu tinha escrito:

“(…) por isso vamos procurar ser neutros na nossa forma de comunicar” mas alterei para “(…) por isso vamos procurar comunicar de forma neutra”.

A linguagem inclusiva não exclui ninguém; nem devido à idade, ao sexo, ao género, orientação sexual, convicções religiosas, classe social ou características físicas ou mentais.

E eu acredito que quando começamos a despertar para este tema, fica difícil não começar a ter mais atenção e cuidado com a forma como comunicamos, e acima de tudo… sobre o que isso diz sobre a nossa forma de fazer parte de um mundo mais igual e mais justo para todas as pessoas.

Claro que vamos errar, mas mais do que a perfeição importa a intenção e o movimento.

Consulta aqui o documento oficial sobre linguagem inclusiva do Conselho da União Europeia, para mais informações.

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