Carnaval sem apropriação cultural

O carnaval está aqui ao virar da esquina, as escolas estão a organizar bailes de máscara virtuais e, apesar deste ano ser bastante diferente, não deixa de ser uma boa oportunidade de fugir da rotina e pensar em atividades giras para fazermos com as crianças.

Mas este post não é sobre isso, é mais um heads up amigável 😊

É que eu queria falar-te da importância de colocarmos algum pensamento na escolha dos fatos de carnaval, e explicar-te também porque é que nos vestirmos de outra cultura, nacionalidade, ou etnia não é ok e pode ser sentido como desrespeitador e redutor.

A conversa sobre onde começa a apropriação cultural e até onde vai a nossa liberdade de expressão, dura há muito tempo, e é um tema que tanto me apaixona como me intriga porque é muito sensível, e os limites nem sempre são os mais óbvios.

Apropriação cultural ocorre quando alguém adota elementos específicos de outra cultura – ideias, símbolos, imagens, sons, objetos, formas ou comportamentos – sem permissão dessa cultura, e tirando-os do seu contexto. No carnaval este assunto ganha proporções maiores porque essa apropriação é com fim recreativo e quase “humorístico”. E quem é que decide se é ofensivo ou não? É sempre a pessoa/cultura que se está a sentir ofendida e/ou atacada, e não os outros.

De um lado da discussão temos as minorias, que são vítimas de opressão, preconceito, desigualdades e injustiças sociais, que olham para certas máscaras de carnaval como algo potencialmente ofensivo. Do outro lado estão os que acham que isto do “politicamente correcto” já foi longe de mais e alegam a sua liberdade de expressão.

Eu compreendo que estas coisas mudam constantemente, e é difícil mantermo-nos a par. Há coisas que fazíamos há 10 anos que hoje são totalmente inaceitáveis – eu sou e sempre fui uma fã do carnaval e tenho máscaras que hoje em dia seriam seguramente ofensivas. Mas hey, todos evoluímos e estamos sempre a aprender… honestamente a mim interessa-me (especialmente enquanto mãe) aproveitar todas as oportunidades para criar um mundo inclusivo e com mais respeito para todos.

Quando falamos em máscaras de princesas e príncipes, pandas, bruxas ou feiticeiros, bombeiro/a, unicórnio, polícia, ou algo do género, está tudo ok.

Quando começamos a falar de saris, kimonos, ou hijabs provavelmente já estamos a passar a fronteira da apropriação cultural. Por exemplo, a mascara de índio já não é bem aceite porque quando temos em conta que os índios fazem parte de uma cultura que foi e é bastante abusada deixa de ter piada. Também não nos passaria pela cabeça vestirmo-nos de judeus ou nazis.

O ano passado um dos meus filhos mascarou-se de ninja, e antes de oficializarmos a escolha fiz algum trabalho de pesquisa para perceber se poderia ser ou não ofensivo, e a informação que encontrei foi contraditória: nuns locais dizia que era OK porque ninja é uma profissão, e desde que eu não lhe pintasse a cara de amarelo e desenhasse uns olhos em bico não haveria problema. Noutros sites dizia que sim, era uma máscara problemática porque apesar de ser uma profissão era específica de uma cultura… fiquei assim com muitas dúvidas.

Outro exemplo, o fato da Vaiana ou do Maui, também existem sites a dizer que são apropriação cultural e outros a dizer que não são, mas eu aí já não concordo… uma criança que se mascare de Vaiana está a mascarar-se daquela personagem específica, e não de menina de Motu Nui. Lá está, desde que não se pinte a pele… aí estamos a passar a linha. Consegues ver a subtileza que faz a diferença?

Portanto há aqueles casos mesmo óbvios, que são um no brainer, e depois há outros mais ambíguos que requerem mais informação. Eu acredito que só o facto de pararmos para pensar neste assunto já é um bom indicador.

O meu objectivo com este artigo é simplesmente convidar-te a dedicar algum tempo e pensamento a estes temas. Promover o espírito reflexivo em família é uma boa forma de chegarmos a algumas conclusões.

Há maneiras infinitas de nos divertirmos a valer este carnaval, sem cairmos no campo da apropriação cultural, sem sermos ofensivos e desrespeitadores. 

O que achas de tudo isto?

Follow my blog with Bloglovin

Share on facebook
Partilhar no Facebook
Share on twitter
Partilhar no Twitter
Share on linkedin
Partilhar no LinkedIn
Share on whatsapp
Enviar por WhatsApp

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *